quarta-feira, 21 de abril de 2021

Lembranças

Tenho tido algumas lembranças recorrentes. Lembranças acompanhadas de sentimentos peculiares. Por um momento pensei não entendê-los. Mas agora penso que seja uma forma de defesa. O trecho da música Stubborn Love, da banda The Lumineers, resume esse meu sentimento. Ele diz:

It's better to feel pain, than nothing at all

Citá-lo é uma forma de validação e de identificação, pois não sou o único. 

"Sentir nada"

É uma frase supérflua. Parece algo banal não sentir nada, embora não seja. Pelo contrário. É impossível descrever como é estar entorpecido, anestesiado, indiferente a tudo e a todos, como um objeto inanimado que de repente tornou-se animado, desprovido de qualquer outro atributo que um ser vivo possui, a não ser mover-se e ter consciência de existir. Nesses momentos, sinto-me como uma estátua que ganhou vida e não sabe o porquê de a ter ganhado, nem o que fazer com ela, pois nada faz sentido. Tudo se torna mais difícil. Comer, tomar banho, verbalizar. A sensação de vazio, de busca por algum propósito ou sensação, acumula-se progressivamente. Quando duradoura, chega a um estado angustiante e insuportável. A dor física auto infligida substitui brevemente esse sofrimento, em um alívio momentâneo. Mas nunca é o suficiente. O próximo passo, geralmente, é deixar de existir. Há várias formas de deixar de existir. Mas elas, hora ou outra, convergem para um fim comum e irreversível. 

It's better to feel pain, than nothing at all

Mas eu não estou entorpecido. Não no momento desta escrita. Estou no outro lado, "melhor", da situação. São aquelas lembranças recorrentes que citei no começo. Têm me tirado o sono e a produtividade. 

Eu busco essas lembranças, e cada vez mais elas se tornam mais tangíveis e mais incômodas. São muitas, mas uma se destaca. Eu estava no ensino médio. Foram 3 anos rodeados por uma paixão platônica, fantasiada em poemas, textos e realidades que eu criava. Foi quando, aliás, eu comecei a escrever meus sentimentos. Nestes três anos eu a olhava, como um vislumbre. Era encantador e triste ao mesmo tempo. Nestes três anos, eu nunca lhe dirigi uma palavra, embora pensasse inesgotavelmente nisso, e ensaiava, e imaginava todas as respostas possíveis e todo o futuro que as acompanhavam. Um sim, um não, ou apenas uma chance. Independente da resposta, eu tinha a certeza de que ela me acordaria dessa ilusão. Mas nunca houve a declaração. Sequer um oi. Não só isso, como eu fugia instintivamente de seu alcance para então me limitar a contempla-la, de longe, enquanto pensava em me aproximar, e interagir minimamente. Mas o tempo passou, e não o fiz. 

Certo dia, durante meu trajeto, avistei-a viver sua adolescência nos lábios de outro. Um garoto normal, que conseguiu lhe dizer coisa qualquer, e ter seu convite de amor aceito. Neste dia, eu chorei, em meu esconderijo de sempre no intervalo escolar. 

Embora contraditório, sinto-me muito contente por reviver estas lembranças, por lamentar as oportunidades que perdi e por ter vivido parte da minha vida sob a depressão e ansiedade social. Lamento-as, porém, de uma forma lúcida. E se as lamento, é porque mudei e continuo a superar os desafios da vida, e sinto a necessidade viver o que não vivi.

E isso é incrivelmente melhor do que não sentir nada.





sábado, 2 de dezembro de 2017

Além do olhar

I

Recordo-me de sentimentos confinados em um passado recente
Mas tão distantes quanto sentimentos podem se distanciar
Percebo que aquelas mágoas mantinham-me vivo
Porque eram verdadeiramente reais e autênticas
Como nunca mais pude sentir qualquer coisa real e autêntica
Ainda que motivadas pela inocência de um amor tão irreal quanto real

Nessas recordações eu chorava e sabia pelo o que chorava
E sentia imensa necessidade de algo tangível pelo meu coração
Certo dia, exausto do inatingível, num ato impensado
Eu enterrei o amor antes que ele me enterrasse
E agora choro sem saber pelo o que choro
E sinto imensa necessidade de sentir qualquer coisa
Como quem já sentiu de tudo
Ou julga suficiente tudo que já sentiu
E lamenta não encontrar propósito na sensações


II

A partir daí vivi sob abstinência de algo que nunca existiu
E não demorou muito para eu ceder à novas esperanças
Quando dei-me por conta, estava a desenterrar o amor
Mas encontrei algo irreconhecível, pequeno e frágil
Que se desfazia em todo encontro de olhares
Então eu apenas esqueci o amor, despedaçado, no bolso da calça
E julguei ser um final justo, entre enterros e desenterros

A partir daí, fui adepto à filosofia de que o amor é apenas uma fase
E que olhares não são senão olhares de desejos
Talvez o amor não esteja no coração, mas no Timo
É um órgão grande na criança, que involui até desaparecer no adulto
O amor é, portanto, um órgão vestigial
Que hora ou outra se esquece no bolso da calça

III

Eu estava a me contentar com as carências da existência
Sentir necessidade de sentir algo é só outro sentimento
Por isso eu me distraía com olhares de desejos
Nunca havia pensado sobre desejos começarem com além do olhar
Eu havia combinado de a encontrar no fim de uma manhã
Meu olhar percorria os cantos atrás do olhar dela
Para assim me distrair com seus e olhos e depois dizermos adeus
Então eu ouvi um oi despretensioso
Um braço a me acolher pelas costas
Cabelos cacheados a pousarem sobre meu ombro
E o bolso da minha calça a esquentar todo o meu corpo





quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Gosto de não estar sempre bem

Gosto de não estar sempre bem
Poder aproveitar as coisas não estando bem
Porque nada melhor que aproveitar algo quando não se está bem
Ter o privilégio de ser reconfortado pelas coisas simples
Sentir o espírito revigorar-se pela grandeza das coisas simples

Pois quando se está bem, está-se satisfeito e tudo é apenas um detalhe
Mas para mim, quero que tudo seja o que de fato é
Na sua máxima expressão

Quando não estou bem
As estrelas não são só mais um detalhe
São tudo o que são, o universo todo ao meu alcance
E sinto-me imensamente alegre por poder apreciar as estrelas
Nada mais se faz necessário

Quando não estou bem
As estrelas me confortam e me recordam
O universo todo é o que sempre foi
E eu sou o que sempre fui e poderei ser
Esteja eu bem ou não

Talvez, não estar bem seja uma consequência
De entender as estrelas e o universo
Mas destas verdades não abro mão
Gosto de não estar sempre bem

- Lucas R. Damasceno

sábado, 16 de setembro de 2017

Então ela se foi

Hoje, uma velha conhecida bateu-me à porta, em uma visita que já era esperada. Relutante, deixei-a entrar nesta moradia que um dia compartilhamos tão intimamente, mas, agora, pouco lhe é familiar.
Não foi preciso dizer, mas ambos sabíamos que esse encontro não poderia durar muito e ela voltaria a ser passado, inacessível às minhas lembranças, se não em raras visitas que me faz desavisadamente.
Doía olhar seus olhos avermelhados, mas hoje eles não transbordavam mais, e aquela profunda solidão que tanto vi consumi-la, agora confundia-se com uma tênue saudade de algo que não se sabe o que é e que passará despercebidamente.
Doía olhar seus olhos, inexpressivos, que tudo tanto esconde por ser tudo inexpressável e incomunicável. Mas aquele medo assolador do futuro já não passava de um cansaço das expectativas diárias, que, felizmente, agora existem.
Doía olhar os seus olhos, mas eu insistia encará-los frente ao espelho, como uma prova de resistência. Jamais aceitei serem verdadeiramente meus, e sim de um mal-entendido entre minhas sinapses e o universo.
Reflexo de um passado de memórias redundantes, cronologicamente indistinguíveis, sentimentalmente indistinguíveis. Passado o qual não sei onde começou nem quando terminou, mas que hoje é passado para aquém de lembranças passageiras e borradas.
Não notei quando minha visita se foi. Quando me dei por conta, estava ocupado com coisa qualquer, tomado pela paz que ansiosamente aguardei e do ausente incômodo constante de olhos pesados. 
Meus olhos repousaram sobre a cama em meu quarto, e eu sorri ao pensar que ali não era mais o meu refúgio.
 

Nunca estou onde quero estar

Nunca estou onde quero estar
Jamais estive onde quisesse estar
Sequer desejo estar em lugar algum
Mas ainda, eu quero estar
Quero estar morto porém vivo
Poder sentir minha abstração de tudo que não existe mais
Apreciar minha inexistência e apreciar tudo que não existe mais
Porque tudo que existe é temporário
E essa brevidade é a causa do meu mal-estar

Em vez disso, encontro-me suficientemente vivo
Porém morto, e morro um pouco mais a cada instante
Sempre suficientemente vivo a morrer um pouco mais
E esse lento desfalecimento é, também, causa de meu mal-estar

Não desejo sofrer pelo que não existirá daqui um bilhão de anos
Também não me convém gozar dessa temporariedade
Já amei o suficiente para uma era inteira
Mas todo o amor se foi em intervalo de segundos
E com isso, sofri o suficientemente para dez eras inteiras
E esse sofrimento foi-se em menor intervalo ainda
Agora, eu dispenso a finitude dos sentimentos eternos

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Poder do acaso

         Parecia-me uma loucura o universo ter se originado de algo do tamanho de um átomo. Bilhões de galáxias e constelações, frutos de um acaso. O vazio deu origem ao tempo-espaço e se seguiu de uma incontrolável e eterna expansão.
         Mas isso ficou claro quando conheci Maria. Tudo começou com um oi, entre milhões de ois que surgem a cada segundo. Então esse oi começou a se expandir antes mesmo que eu percebesse sua expansão, e quando eu percebi, havia um universo inteiro entre mim e Maria. Agora, o nosso acaso abriga uma expansão eterna de sentimentos, que antes eram para mim tão abstratos quanto o big-bang. Sentimentos tangíveis, galáxias de palavras e olhares que surgem a cada encontro.
         Parece uma loucura pensar que o universo meu e de Maria surgiu de um pequeno e breve oi; que nossos sentimentos, poesias e momentos poderiam não existir se não fosse um oi. Parece mais loucura ainda pensar que esse universo acabou de nascer e é apenas uma fração do que se tornará durante sua expansão eterna.
         Tudo que existe, um dia não existiu, mas agora que existe, o universo meu e de Maria não deixará de existir nunca.

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Seu jeito doce e meigo de ser, seu sorriso de criança que aquecia meu coração com ternura, sua maneira alegre e contagiante de ser, sua personalidade singular que me presenteava com os sentimentos mais intensos e bonitos.
Por causa disso e muitas outras coisas, bastava você existir para eu ser feliz. Mas ainda que você exista, e há sempre de existir em meu coração, não posso mais ser feliz, porque eu não existo mais, estando longe de você. Não passo de uma alma afundando em um oceano de lembranças, e quando alcanço a superfície, o ar lá fora é tóxico, e eu já o respirei de mais. Agora, a maré está me levando de volta para você.
Eu soltei sua mão e me perdi em um mundo sem estrelas



sábado, 18 de junho de 2016

Sensações

Espanta-me a ideia de que qualquer atividade desperta um imenso incômodo em mim. Tentando fugir de um debilitante desconforto existencial, penso em qualquer coisa que possa trazer alguma satisfação. Lembro-me da expressiva satisfação obtida ao assistir a séries, ir ao cinema, jogar qualquer coisa, ler livros ou até mesmo escrevê-los. Mas o mero pensamento de fazer qualquer coisa me traz a visão de uma carcaça humana pendurada em frente à TV, ao computador, aos livros, torturada pelo fato de não sentir nem a própria existência. Forçar os olhos em imagens que já não significam mais nada, ler histórias que já não passam mais de tinta em um papel qualquer, frequentar uma sala de cinema que me causaria a mesma sensação de estar em uma gruta úmida e escura. Percebo que manter qualquer atividade cerebral intensifica meu desconforto existencial, como se o mundo fosse areia movediça e qualquer movimento me fizesse afundar. Para se ter desconforto existencial, é preciso, no mínimo, existir. Por instinto, mergulho-me em uma profunda letargia como único mecanismo de defesa.

Infelizmente, pouco importa se você está se afogando em areia movediça. O mundo anda e você deve acompanha-lo. Outra constatação me diz que já não sou eu quem controla meu corpo. Este que me carrega, como um cárcere movido unicamente pela mecânica biológica. E mais uma vez me ocorre aqueles pensamentos, sugerindo-me formas de como me libertar desse cárcere. Os passos ao meu redor, as conversas, o som dos carros; por um momento, disfarçado de eternidade, isso compõe toda a minha existência, e eu quero fugir dela, mas continuo a afundar.


Mais um dia termina. Troco minhas roupas como se fossem uma pesada armadura. Deito-me já em prantos: meus olhos libertam a hemorragia de meu espírito contida durante todo o dia. Ciente de se tratar de um sofrimento desproporcional, aceitando sua causa patológica, concentro meus resquícios de energia em resistir aos pensamentos que tentam me convencer a por um fim nesta existência. Enquanto eles me consomem, adormeço. Um outro dia irá começar, acordarei com forças para vestir novamente aquela armadura, para ainda confiar nos remédios e acreditar, mesmo que inconscientemente, que essa tormenta irá passar.