I
Recordo-me de sentimentos confinados em um passado recente
Mas tão distantes quanto sentimentos podem se distanciar
Percebo que aquelas mágoas mantinham-me vivo
Porque eram verdadeiramente reais e autênticas
Como nunca mais pude sentir qualquer coisa real e autêntica
Ainda que motivadas pela inocência de um amor tão irreal quanto real
Nessas recordações eu chorava e sabia pelo o que chorava
E sentia imensa necessidade de algo tangível pelo meu coração
Certo dia, exausto do inatingível, num ato impensado
Eu enterrei o amor antes que ele me enterrasse
E agora choro sem saber pelo o que choro
E sinto imensa necessidade de sentir qualquer coisa
Como quem já sentiu de tudo
Ou julga suficiente tudo que já sentiu
E lamenta não encontrar propósito na sensações
II
A partir daí vivi sob abstinência de algo que nunca existiu
E não demorou muito para eu ceder à novas esperanças
Quando dei-me por conta, estava a desenterrar o amor
Mas encontrei algo irreconhecível, pequeno e frágil
Que se desfazia em todo encontro de olhares
Então eu apenas esqueci o amor, despedaçado, no bolso da calça
E julguei ser um final justo, entre enterros e desenterros
A partir daí, fui adepto à filosofia de que o amor é apenas uma fase
E que olhares não são senão olhares de desejos
Talvez o amor não esteja no coração, mas no Timo
É um órgão grande na criança, que involui até desaparecer no adulto
O amor é, portanto, um órgão vestigial
Que hora ou outra se esquece no bolso da calça
III
Eu estava a me contentar com as carências da existência
Sentir necessidade de sentir algo é só outro sentimento
Por isso eu me distraía com olhares de desejos
Nunca havia pensado sobre desejos começarem com além do olhar
Eu havia combinado de a encontrar no fim de uma manhã
Meu olhar percorria os cantos atrás do olhar dela
Para assim me distrair com seus e olhos e depois dizermos adeus
Então eu ouvi um oi despretensioso
Um braço a me acolher pelas costas
Cabelos cacheados a pousarem sobre meu ombro
E o bolso da minha calça a esquentar todo o meu corpo
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