Tenho tido algumas lembranças recorrentes. Lembranças acompanhadas de sentimentos peculiares. Por um momento pensei não entendê-los. Mas agora penso que seja uma forma de defesa. O trecho da música Stubborn Love, da banda The Lumineers, resume esse meu sentimento. Ele diz:
It's better to feel pain, than nothing at all
Citá-lo é uma forma de validação e de identificação, pois não sou o único.
"Sentir nada"
É uma frase supérflua. Parece algo banal não sentir nada, embora não seja. Pelo contrário. É impossível descrever como é estar entorpecido, anestesiado, indiferente a tudo e a todos, como um objeto inanimado que de repente tornou-se animado, desprovido de qualquer outro atributo que um ser vivo possui, a não ser mover-se e ter consciência de existir. Nesses momentos, sinto-me como uma estátua que ganhou vida e não sabe o porquê de a ter ganhado, nem o que fazer com ela, pois nada faz sentido. Tudo se torna mais difícil. Comer, tomar banho, verbalizar. A sensação de vazio, de busca por algum propósito ou sensação, acumula-se progressivamente. Quando duradoura, chega a um estado angustiante e insuportável. A dor física auto infligida substitui brevemente esse sofrimento, em um alívio momentâneo. Mas nunca é o suficiente. O próximo passo, geralmente, é deixar de existir. Há várias formas de deixar de existir. Mas elas, hora ou outra, convergem para um fim comum e irreversível.
It's better to feel pain, than nothing at all
Mas eu não estou entorpecido. Não no momento desta escrita. Estou no outro lado, "melhor", da situação. São aquelas lembranças recorrentes que citei no começo. Têm me tirado o sono e a produtividade.
Eu busco essas lembranças, e cada vez mais elas se tornam mais tangíveis e mais incômodas. São muitas, mas uma se destaca. Eu estava no ensino médio. Foram 3 anos rodeados por uma paixão platônica, fantasiada em poemas, textos e realidades que eu criava. Foi quando, aliás, eu comecei a escrever meus sentimentos. Nestes três anos eu a olhava, como um vislumbre. Era encantador e triste ao mesmo tempo. Nestes três anos, eu nunca lhe dirigi uma palavra, embora pensasse inesgotavelmente nisso, e ensaiava, e imaginava todas as respostas possíveis e todo o futuro que as acompanhavam. Um sim, um não, ou apenas uma chance. Independente da resposta, eu tinha a certeza de que ela me acordaria dessa ilusão. Mas nunca houve a declaração. Sequer um oi. Não só isso, como eu fugia instintivamente de seu alcance para então me limitar a contempla-la, de longe, enquanto pensava em me aproximar, e interagir minimamente. Mas o tempo passou, e não o fiz.
Certo dia, durante meu trajeto, avistei-a viver sua adolescência nos lábios de outro. Um garoto normal, que conseguiu lhe dizer coisa qualquer, e ter seu convite de amor aceito. Neste dia, eu chorei, em meu esconderijo de sempre no intervalo escolar.
Embora contraditório, sinto-me muito contente por reviver estas lembranças, por lamentar as oportunidades que perdi e por ter vivido parte da minha vida sob a depressão e ansiedade social. Lamento-as, porém, de uma forma lúcida. E se as lamento, é porque mudei e continuo a superar os desafios da vida, e sinto a necessidade viver o que não vivi.
E isso é incrivelmente melhor do que não sentir nada.
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