Hoje, uma
velha conhecida bateu-me à porta, em uma visita que já era esperada.
Relutante, deixei-a entrar nesta moradia que um dia compartilhamos tão
intimamente, mas, agora, pouco lhe é familiar.
Não foi
preciso dizer, mas ambos sabíamos que esse encontro não poderia durar muito e
ela voltaria a ser passado, inacessível às minhas lembranças, se não em raras
visitas que me faz desavisadamente.
Doía olhar
seus olhos avermelhados, mas hoje eles não transbordavam mais, e aquela
profunda solidão que tanto vi consumi-la, agora confundia-se com uma tênue
saudade de algo que não se sabe o que é e que passará despercebidamente.
Doía olhar
seus olhos, inexpressivos, que tudo tanto esconde por ser tudo inexpressável e
incomunicável. Mas aquele medo assolador do futuro já não passava de um cansaço
das expectativas diárias, que, felizmente, agora existem.
Doía olhar os
seus olhos, mas eu insistia encará-los frente ao espelho, como uma prova de resistência. Jamais aceitei serem
verdadeiramente meus, e sim de um mal-entendido entre minhas sinapses
e o universo.
Reflexo de um passado de memórias redundantes, cronologicamente indistinguíveis, sentimentalmente
indistinguíveis. Passado o qual não sei onde começou nem quando terminou, mas
que hoje é passado para aquém de lembranças passageiras e borradas.
Não notei
quando minha visita se foi. Quando me dei por conta, estava ocupado com coisa
qualquer, tomado pela paz que ansiosamente aguardei e do ausente incômodo
constante de olhos pesados.
Meus olhos repousaram sobre a cama em meu quarto, e eu sorri ao pensar que ali não era mais o meu refúgio.
Nenhum comentário:
Postar um comentário