sábado, 16 de setembro de 2017

Então ela se foi

Hoje, uma velha conhecida bateu-me à porta, em uma visita que já era esperada. Relutante, deixei-a entrar nesta moradia que um dia compartilhamos tão intimamente, mas, agora, pouco lhe é familiar.
Não foi preciso dizer, mas ambos sabíamos que esse encontro não poderia durar muito e ela voltaria a ser passado, inacessível às minhas lembranças, se não em raras visitas que me faz desavisadamente.
Doía olhar seus olhos avermelhados, mas hoje eles não transbordavam mais, e aquela profunda solidão que tanto vi consumi-la, agora confundia-se com uma tênue saudade de algo que não se sabe o que é e que passará despercebidamente.
Doía olhar seus olhos, inexpressivos, que tudo tanto esconde por ser tudo inexpressável e incomunicável. Mas aquele medo assolador do futuro já não passava de um cansaço das expectativas diárias, que, felizmente, agora existem.
Doía olhar os seus olhos, mas eu insistia encará-los frente ao espelho, como uma prova de resistência. Jamais aceitei serem verdadeiramente meus, e sim de um mal-entendido entre minhas sinapses e o universo.
Reflexo de um passado de memórias redundantes, cronologicamente indistinguíveis, sentimentalmente indistinguíveis. Passado o qual não sei onde começou nem quando terminou, mas que hoje é passado para aquém de lembranças passageiras e borradas.
Não notei quando minha visita se foi. Quando me dei por conta, estava ocupado com coisa qualquer, tomado pela paz que ansiosamente aguardei e do ausente incômodo constante de olhos pesados. 
Meus olhos repousaram sobre a cama em meu quarto, e eu sorri ao pensar que ali não era mais o meu refúgio.
 

Nunca estou onde quero estar

Nunca estou onde quero estar
Jamais estive onde quisesse estar
Sequer desejo estar em lugar algum
Mas ainda, eu quero estar
Quero estar morto porém vivo
Poder sentir minha abstração de tudo que não existe mais
Apreciar minha inexistência e apreciar tudo que não existe mais
Porque tudo que existe é temporário
E essa brevidade é a causa do meu mal-estar

Em vez disso, encontro-me suficientemente vivo
Porém morto, e morro um pouco mais a cada instante
Sempre suficientemente vivo a morrer um pouco mais
E esse lento desfalecimento é, também, causa de meu mal-estar

Não desejo sofrer pelo que não existirá daqui um bilhão de anos
Também não me convém gozar dessa temporariedade
Já amei o suficiente para uma era inteira
Mas todo o amor se foi em intervalo de segundos
E com isso, sofri o suficientemente para dez eras inteiras
E esse sofrimento foi-se em menor intervalo ainda
Agora, eu dispenso a finitude dos sentimentos eternos