Espanta-me a ideia de que qualquer
atividade desperta um imenso incômodo em mim. Tentando fugir de um debilitante
desconforto existencial, penso em qualquer coisa que possa trazer alguma
satisfação. Lembro-me da expressiva satisfação obtida ao assistir a séries, ir ao cinema, jogar qualquer coisa, ler livros ou até mesmo escrevê-los. Mas o mero pensamento de fazer
qualquer coisa me traz a visão de uma carcaça humana pendurada em frente à TV,
ao computador, aos livros, torturada pelo fato de não sentir nem a própria
existência. Forçar os olhos em imagens que já não significam mais nada, ler
histórias que já não passam mais de tinta em um papel qualquer, frequentar uma
sala de cinema que me causaria a mesma sensação de estar em uma gruta úmida e
escura. Percebo que manter qualquer atividade cerebral intensifica meu
desconforto existencial, como se o mundo fosse areia movediça e qualquer
movimento me fizesse afundar. Para se ter desconforto existencial, é preciso,
no mínimo, existir. Por instinto, mergulho-me em uma profunda letargia como
único mecanismo de defesa.
Infelizmente, pouco importa se
você está se afogando em areia movediça. O mundo anda e você deve acompanha-lo.
Outra constatação me diz que já não sou eu quem controla meu corpo. Este que me
carrega, como um cárcere movido unicamente pela mecânica biológica. E mais uma
vez me ocorre aqueles pensamentos, sugerindo-me formas de como me libertar
desse cárcere. Os passos ao meu redor, as conversas, o som dos carros; por um
momento, disfarçado de eternidade, isso compõe toda a minha existência, e eu
quero fugir dela, mas continuo a afundar.
Mais um dia termina. Troco minhas
roupas como se fossem uma pesada armadura. Deito-me já em prantos: meus olhos
libertam a hemorragia de meu espírito contida durante todo o dia. Ciente de se
tratar de um sofrimento desproporcional, aceitando sua causa patológica,
concentro meus resquícios de energia em resistir aos pensamentos que tentam me
convencer a por um fim nesta existência. Enquanto eles me consomem, adormeço.
Um outro dia irá começar, acordarei com forças para vestir novamente aquela
armadura, para ainda confiar nos remédios e acreditar, mesmo que
inconscientemente, que essa tormenta irá passar.
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