sábado, 18 de junho de 2016

Sensações

Espanta-me a ideia de que qualquer atividade desperta um imenso incômodo em mim. Tentando fugir de um debilitante desconforto existencial, penso em qualquer coisa que possa trazer alguma satisfação. Lembro-me da expressiva satisfação obtida ao assistir a séries, ir ao cinema, jogar qualquer coisa, ler livros ou até mesmo escrevê-los. Mas o mero pensamento de fazer qualquer coisa me traz a visão de uma carcaça humana pendurada em frente à TV, ao computador, aos livros, torturada pelo fato de não sentir nem a própria existência. Forçar os olhos em imagens que já não significam mais nada, ler histórias que já não passam mais de tinta em um papel qualquer, frequentar uma sala de cinema que me causaria a mesma sensação de estar em uma gruta úmida e escura. Percebo que manter qualquer atividade cerebral intensifica meu desconforto existencial, como se o mundo fosse areia movediça e qualquer movimento me fizesse afundar. Para se ter desconforto existencial, é preciso, no mínimo, existir. Por instinto, mergulho-me em uma profunda letargia como único mecanismo de defesa.

Infelizmente, pouco importa se você está se afogando em areia movediça. O mundo anda e você deve acompanha-lo. Outra constatação me diz que já não sou eu quem controla meu corpo. Este que me carrega, como um cárcere movido unicamente pela mecânica biológica. E mais uma vez me ocorre aqueles pensamentos, sugerindo-me formas de como me libertar desse cárcere. Os passos ao meu redor, as conversas, o som dos carros; por um momento, disfarçado de eternidade, isso compõe toda a minha existência, e eu quero fugir dela, mas continuo a afundar.


Mais um dia termina. Troco minhas roupas como se fossem uma pesada armadura. Deito-me já em prantos: meus olhos libertam a hemorragia de meu espírito contida durante todo o dia. Ciente de se tratar de um sofrimento desproporcional, aceitando sua causa patológica, concentro meus resquícios de energia em resistir aos pensamentos que tentam me convencer a por um fim nesta existência. Enquanto eles me consomem, adormeço. Um outro dia irá começar, acordarei com forças para vestir novamente aquela armadura, para ainda confiar nos remédios e acreditar, mesmo que inconscientemente, que essa tormenta irá passar.

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